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Rio Grande,26/02/2025

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Artigo - Reinício – 2025


Artigo -  Reinício – 2025 Foto: Arquivo pessoal
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Reiniciamos o ano letivo na rede municipal nesta semana de aniversário do município do Rio Grande. Reiniciamos com muita esperança de quatro anos melhores do que os quatro anos anteriores. Sabemos que o foco no presente e a esperança no futuro devem nos mover, a priori. Porém, sem uma leitura lúcida do passado, corremos o risco de repeti-lo. E, definitivamente, não queremos que se repita o que vivenciamos nos anos anteriores na rede municipal de educação do Rio Grande.

Na maior parte desses quatro anos, tivemos um engenheiro como secretário de educação. Nada contra engenheiros, desde que não estejam tentando fazer gestão da educação escolar. Nesse tempo, o foco da SMED foram números, índices, métricas, custo aluno, entre outros parâmetros quantitativos. Se isso tivesse garantido todas as turmas com professores desde o início do ano e todas as salas de aula em condições ótimas, em todas as escolas, ainda assim, não seria a melhor abordagem para a gestão da rede escolar municipal, ou de qualquer rede. Mas, ao contrário, houve falta de professoras tanto nos anos iniciais, como nos anos finais, além de falta de vagas para as crianças na educação infantil.

Provas dessas realidades vividas podem ser encontradas em sites de notícias da cidade e região, como O Litorâneo, Portal Oceano, Rádio Gaúcha, entre outros.

E a formação continuada das professoras, como foi? Afinal, somos cobradas o tempo todo em relação a promover a atratividade do ensino. Como faremos para atrair e manter o interesse e a motivação dos estudantes, frente às alternativas proporcionadas pela tecnologia? Uma visão pedagógica rasa e apressada prescreve: vamos também nós, usar tecnologias digitais. De acordo com essa visão, a SMED promoveu encontros de formação docente, nos quais as professoras foram orientadas a baixar aplicativos nos seus celulares para aprender a fazer cards, e desenvolver outras habilidades tecnológicas, para, pretensamente traduzir o conteúdo de forma mais atraente aos estudantes.

Não preciso explicar o quanto isso situa-se longe de uma formação docente crítica, reflexiva e contextualizada que se traduza em qualidade da educação na sala de aula.

Em outra vez, a formação docente tratou de como utilizar um material de qualidade pedagógica discutível, tanto em relação à forma, quanto ao conteúdo, este com teor muito próximo ao que os coachs desenvolvem, baseado em empreendedorismo e mindset, entre outros conceitos de ocasião.

Essas habilidades, entre outras, devem ser colocadas em prática mediante planejamento específico, como é obvio. Aqui passo a discorrer sobre outro problema que enfrentamos nos quatro anos passados. Além da pouca qualidade desse material, e da ideologia coach embutida nele, o problema é que este planejamento teve que ser feito, num tempo exíguo, dividido com a elaboração de instrumentos avaliativos, sua correção, lançamento de notas, entre outros registros, além das pesquisas e buscas que fazemos para a elaboração das aulas. Explicando: das 20 horas semanais de trabalho na rede, tínhamos 17 horas-aula em sala de aula, restando, portanto, pouquíssimo tempo para toda a preparação que envolve todas as tarefas docentes.


Espero que todos entendam que, assim como o atleta não trabalha somente durante o jogo, ou prova, também nós professoras não trabalhamos somente durante a aula. Isso é absolutamente impossível! E, quanto àquele argumento de que as professoras já têm as aulas prontas, isso não pode estar mais longe da verdade, porque cada turma é diferente, com demandas diferentes, de forma que até podemos utilizar um mesmo “esqueleto” de aula, nas mais das vezes nem isso. Afinal, apesar das condições que a SMED nos impôs, nossos estudantes merecem aulas de qualidade. E nós merecemos condições para realizar um trabalho bem feito.

E por falar em reinício, no ano de 2022, iniciamos com todos os estudantes em sala de aula, ainda com a COVID-19 fazendo estragos, mas já mais tranquilas, pois já estávamos com 2 ou 3 doses da vacina, dependendo da idade. Demos aula de máscara, o que foi bem desafiador e difícil, ao mesmo tempo que fiscalizamos o uso da máscara pelos estudantes e também os simples atos de tomar água e de interagir entre eles, para sua própria segurança. Pois bem, neste ano, a única orientação da SMED para o início do ano foi o calendário. A primeira orientação de cunho pedagógico veio em maio. Sim, em maio, 3 meses após o início das aulas! A SMED supôs que as professoras saberiam o que fazer numa situação absolutamente nova? Volta às aulas com as turmas cheias, ainda na vigência da pandemia e com muitos estudantes que não iam à escola há 2 anos e vivenciando também eles em suas famílias, o drama da pandemia.

Sim, soubemos o que fazer e, mesmo sem apoio da SMED, fizemos o nosso melhor. Mesmo pressionadas pela própria SMED a estar em sala de aula o tempo todo, o que nos tirou a possibilidade de fazermos reuniões. Lembre-se, o foco desta mantenedora eram, como já explicado, números, escores. Imagine, leitor, reiniciar cada escola nesta situação, sem horário para nos reunirmos

internamente para planejar estratégias pedagógicas para esse ano especial, o ano do retorno a certa normalidade. Como fizemos? Fizemos reuniões rápidas na hora do recreio, que é o horário de descanso remunerado do professor, assegurado em lei. Enfim, fizemos tudo o que pudemos, encontramos brechas. Mas houve custos, principalmente de saúde mental e física das professoras.

Quem quiser comprovar o que relato, busque o número de laudos médicos das professoras nesse ano de 2022.

Não poderia encerrar esse texto sem mencionar todo o trabalho que fizemos durante a pandemia, com aulas remotas, depois ensino híbrido, com estudantes em sala e na tela do computador ao mesmo tempo! Ou atendendo os estudantes em casa, com recursos próprios depois da aula presencial. Isso durante o 1º semestre do ano 2021, sempre pressionadas pela SMED a voltarmos para as escolas, sem vacina. Aliás, vimos colegas perderem suas vidas contaminadas pelo vírus.

Nesse aspecto, não posso deixar de agradecer ao SINTERG, especialmente à colega profa. Suzi Barros, coordenadora sindical à época, que foi gigante na defesa da nossa segurança sanitária no trabalho, garantindo, via mobilização sindical e negociação com a mantenedora, o nosso retorno à escola após a 1ª dose da vacina contra a COVID-19, no ano de 2021.


Abordei brevemente apenas alguns aspectos dos impactos que a gestão desastrosa da SMED teve nas nossas vidas e na educação do município do Rio Grande. Sabemos que a política é cíclica e que numa democracia a alternância de poder é coisa corriqueira. Porém, que não se esqueça o que foi vivido, para não incorrermos nos mesmos erros no futuro. Alguns desses erros custaram vidas e saúde mental das professoras.

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